Efemeridade

Eu era uma dessas pessoas.
Via no noticiário com frequência o anúncio de tragédias que aconteciam por fenômenos naturais, e o desespero das pessoas. Via o drama ser explorado pela mídia, e achava aquilo um exagero. As pessoas eram mostradas chorando, outras tantas sendo resgatadas em situações críticas no que parece não ser em nada com aquelas cenas de ação dos filmes, mas eram resgates.
Eu estava dessensibilizado.
As notícias fazem isso: saturam. Depois de alguns anos sendo bombardeado com a dramaticidade dos eventos, acreditamos muitas vezes que nada daquilo vem a ser tão ruim quanto as notícias sugerem. Nos ensinam a filtrar o drama. Não nos ensinam quando não fazê-lo.
Pois eu digo que, por vezes, a mídia tem razão. Certos eventos são realmente dramáticos e a única coisa que eles passam é a realidade.
E falo mesmo da velha frase "perdi tudo!" que se tanto ouve e até se satiriza.  Não há graça em dizer que alguém que nada teve não pode perder tudo. Uma coisa é nada ter no material. Outra coisa, é ver seus sonhos serem desmoronados com uma casinha cheia de recordações e planos para o futuro.
Não salvamos o bem, salvamos aquilo que representa em nossa vida. Uma catástrofe natural faz qualquer não-budista dar valor à vida que tem sob os bens materiais que, estes sim, podem ser recuperarados.
Vidas não são perdidas a esmo, sempre haverá quem chore sua perda. Do lado de fora, uma morte soa mal, várias mortes são estatística. Quando se presencia tudo que aconteceu, uma morte é horrível, e várias são uma tragédia. Só sabe dar valor à expressão "drama homérico" quem já esteve em um.
A vida é efêmera. Seu valor não.
Médicos não aprendem a ser frios à morte. Aprendem a ser frios na demonstração do sentimento, para que mais tristeza não se gere em uma família já em luto.
Ou, pelo menos, é sob essa ótica que eles deveriam aprender. Mas não só eles, todos nós.

Pensa nisso.

2 comentários:

Roberta Araujo disse...

Eu às vezes passo essa imagem de quem não se importa mais, pq muitas vezes a repetição faz mesmo a gente se adaptar à notícias desse nível... Ou como meu padrasto falou outro dia aqui "Tem tanta gente morrendo de deslizamento de terra em Salvador, e eu vou me importar com um vulccaõ que entrou em erupção sei lá onde???"

Enfim... Muitas vezes precisamos viver o drama pra perceber o quanto aquilo é terrível.


=//

Lary's disse...

Esse negócio de perder tudo pra mim é relativo...
Tem gente que perde TUDO mesmo. Mesmo que não teha nada de um certo ponto de vista, para o delas elas realmente perdem. Aquilo é o que elas podem ter. A geladeira velha que foi paga em prestação, o sofá furado, mas que servia para o uso da casa por que eles não tinham condição de comprar outro. E isso sem contar as recordações, como você mesmo disse. A vida de quem recebe salário mínimo é difícil mesmo. Eles sofrem mais com esses desastres naturais do que uma pessoa de classe melhor que tinha objetos realmente de valor em sua casa, pois vai ser mais difícil para recuperar.