As Onomatopéias, Estórias de Cowboy e O Caminho pra uma Vida mais Simples

As onomatopéias são recursos de linguagem que nos permitem expressar sons:
"O pistoleiro Kid Carasuja continuava olhando da sacada o Dama de Vermelho, aquele saloon maldito onde tudo começara. Mary estaria na janela a qualquer momento, trazendo mais um de seus 'nobres clientes' como ela disse com tanto gosto ao corrigi-lo do que seria um insulto tratado a uma dama chamando-a de mulher devassa. Agora, ele concordava que estava errado. Deveria tê-la chamado de puta, pois é muito mais digno da 'dama' que é.
Finalmente, quando a festa no saloon começava a chegar ao pico sob as altas horas da madrugada, Kid pôde deleitar-se com a imagem de Mary entrando com mais um sem vergonha desapessoado naquele quarto imundo. A escuridão do prédio onde se encontrava ajudava a mantê-lo escondido, e era exatamente discrição que queria abusar enquanto pulava sorrateiramente entre os telhados das construções e descia para a varanda do casal despreocupado. Essa era sua principal característica: matava silenciosamente.
Abriu o colete, retirou seu famoso revolver com o cano longo que ele mesmo desenvolvera com a finalidade de abafar o som do disparo. Abriu o vidro e atirou contra as velas. Lá de dentro, eles achavam ter sido o vento, mas apenas riram e continuaram com a sua brincadeira. Impassível, Kid avança para dentro do quarto. O homem desconhecido joga a mulher em cima dele para longe com o susto do vulto que agora se impõe em sua frente. Antes que possa reagir, tem uma bala atravessada em sua testa.
Mary, do chão, vê o sangue escorrendo pelo lençol e grita em horror. Levanta-se assustada, e encara, depois de tanto tempo, aquele que foi seu amante um dia. Ele aponta a pistola para a mulher trêmula. Remove o cano longo: quer que todos saibam o que aconteceu ali. Ela tenta um último argumento:
-Vai fazer isso com a mulher que você diz ter te levado ao céu?
-Não. Vou fazer isso com a mulher que ressucitou o demônio em meu coração partido.
Bang!"
Neste texto, o "bang" é uma onomatopéia. É uma palavra aparentemente sem sentido que no contexto certo consegue expressar grande drama ou comédia.
Mais importante, é uma palavra sem sentido. "Pof!" "Pou!" "Capof!" "Bonc!" podem parecer um festival de luta daquele seriado do Batman se, por exemplo, não for dito que "o Sansão voou até o Cebolinha e então..." ou "olhei pro lado enquanto caminhava, não vi o barranco, e aí..."
Onomatopéias são o tipo de coisa que deixa uma narração, principalmente falada, mais fluente e emocionante. Quando muito usadas, dão idéia de grande ação. Quando poucas, a estória parece monótona. Hoje, até palavras que seriam interjeições podem ser usadas como onomatopéias. Descrever em palavras que alguém "...estava de bicicleta, ficou olhando a bunda da sujeita ao lado, não viu o lamaçal escorregadio que se aproximava e CARAAAAAAI!!" é plausível.
Coisas como as onomatopéias servem pra facilitar a comunicação e, no entanto, são extremamente menosprezados e considerados fora da linguagem culta, apesar de estarem tão arraigados e serem de uma diversidade tão grande para a comunicação que bem poderiam ser aceitos oficialmente.
A por detrás do não uso da onomatopéia na língua dita culta é que elas cortam a veiculação de palavras mais sofisticadas. Por exemplo, é muito mais chique dizer no caso do Cebolinha o seguinte: "o Sansão voou até o Cebolinha e este foi severamente escoriado." E acabamos de tirar todo a graça (ou dor) da descrição.
Vamos dar vivas por não terem gramáticas ambulantes (normalmente) nos acompanhamos enquanto contamos uma estória descontraída a nossos amigos.
Viva às onomatopéias! Viva a simplicidade de expressão!
E, porque não, viva um modo de vida mais despreocupado?

Um comentário:

Roberta Araujo disse...

Porque um dia eu estava atravessando a rua veio um ônibus e POOOOOOOOUUU.

Mentira... Oo'

"o Sansão voou até o Cebolinha e este foi severamente escoriado"

oi??

Vc andou usando drogas?