1721º Dia:
Hoje continuei minha caminhada. Já estou há 30 dias afastado do meu antigo bando. Sinto falta das minhas irmãs, lembro de tentarem me derrubar achando-se mais fortes que eu. Éramos filhotes. Nossas brincadeiras eram brigas, nossas brigas, brincadeiras. Eu as amo por isso.
Fiquei grande demais para mim mesmo, papai disse. Grande demais para o grupo.
1725º Dia:
A fome me consome. Preciso arranjar meu próprio lugar, meu próprio alimento. O sol não descansa com seu olhar calórico e colérico. Me consumo, pois sei que não tenho do que me alimentar, pois estou sozinho e perdido.
1726º Dia:
Enquanto me encontro aqui, no meio de lugar nenhum, me deparei com um grupo de pequenos peludos famintos se alimentando de outros diferentes menores ainda que eles. Em um momento, um dos seus, maior, afastou a todos e ficou com a maior parte do alimento. Era como quando estava com meu bando, mas na época não me ocorria que, com os prazeres que o grupo de meu pai proporcionava, eu ficava com as sobras de um líder.
1731º Dia:
Água vem dos céus. Sobra-me um pouco de um lago no chão lamacento.Mas é tudo que preciso, e não ouso tirar mais: já aprendi no passado que me fartar de água me deixa pesado e fraco.
1733º Dia:
Encontrei carne. Observei-o por muito tempo até que cometesse o erro de se afastar daqueles que poderiam lhe avisar sobre minha presença. Me aproximei devagar. Finalmente, quando me aproximei o bastante, o ataquei e mostrei-lhe minhas garras e dentes. Corri com vigor e usei aquilo que sabia ser mais poderoso pra fazer a carne ceder aos meus desejos. Me alimentei da carne. Ela era saborosa, mas não sei se pensava o mesmo enquanto era usada por meus anseios mais primitivos. Não me importo: era só carne.
1735º Dia:
Junto de alguns filhotes abatidos, um outro mais jovem de minha espécie vagava ensaguentado. Eu sabia o que esperar daquele lugar, e dei ao leão a morte que merecia. Não me alimentei dele: embora fosse fraco, não era carne.
1736º Dia:
Como esperado, achei a leoa. Estava fraca, tivera sido atacada pelo jovem no dia anterior e não se recuperara completamente. A leoa me viu de longe, e soube que eu era um leão, e não carne. Soube que eu não era o que a atacara, pois não era leviano. Era também uma adulta, livrara-se do agressor com o mínimo de feridas possível. Me importava com o que pensava: essa era uma leoa, não carne.
1749º Dia:
A Leoa, já curada, foi feita minha. O fato de ter-lhe protegido com certeza evitou que tantos aproveitadores acabassem de vez com sua vida. Teremos filhotes, e caçaremos juntos. Com essa leoa, começo meu bando. Porque ela não é carne, é uma Leoa. E viu que nem eu sou carne, sou um Leão.

4 comentários:
Fiquei curiosa agora em como veio a idéia pra esse texto...
Só com o título já chama atenção, e ficou bom mesmo ^^
Anda escrevendo muita coisa esses dias hein?
ficou bem interessante essa postagem... não sei se foi a intenção, mas dá pra fazer uma analogia e nos colocar no lugar dos leões...e no modo como os relacionamentos tem s dado hj em dia..todo mundo é carne simplesmente...isso é chato
Essa é a natureza... Gostei bastante do texto, mto legal!*_*
É a realidade e podemos dizer que a do mundo em que vivemos tbm... Ahh, depois quero saber se tem a ver com aquele significado da carne que comentou sabe...
A figura é mto fofa tbm! :D
Lendo o texto, me lembrei de um documentário que assisti outro dia no Discovery. Sobre uma leõa solitária, que tinha que aprender a lidar com as situações, porque não tinha um bando. Ao fim da reportagem, a leõa ganha um leão, e eles poderão montar um bando. Com tudo isso, fiquei refletindo sobre a vida animal, sobre situações que para eles são necessárias, mas que vemos como tristes... Na viagem do meu pensamento... acabei no ponto de sempre, a forma como se vê as coisas. Afinal, aquilo que faz parte da vida e do crescimento do leão, para nós seria uma jornada triste e solitária... Gostei da estrutura em diário, deu ao texto um tom mais humanizado, mas mantendo a realidade do leão.
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