Duas Coragens

O motorista se encaminha para a última moça que sobrara no bonde. Já a chamou diversas vezes para a avisar que a viagem já tinha acabado, mas ela fitando o vazio parecia não escutá-lo. Achou que pudesse ser surda, e quis alertá-la. Chacoalha a jovem. Ela olha espantada para ele, sorri instantaneamente, e vagarosamente míngua a súbita felicidade. O motorista se afasta, e a deixa. Despertava a garota de seus sonhos, e a achara estranha pela reação.
A garota saiu do bonde ainda meio aturdida. Cambaleou para fora, sua cabeça pensando em muitas coisas ao mesmo tempo, quase não se dava conta do caminho que fazia instantaneamente para casa, como em reflexo. Na verdade, ela própria já concordava que sua vida não andava muito normal. E isso já há 2 semanas.
No meio de seu trajeto parou instantaneamente no momento que se deparou com um cartaz que exibia um rapaz usando um capacete redondo. Ficou o que pareceu uma eternidade contemplando a imagem, mais perdida em seus pensamentos que propriamente prestando atenção na figura. Um homem com pressa atrás olha para a horário em uma torre próxima e não vê a garota, se esbarrando nela. Pede muitas desculpas e pergunta se não quer que a acompanhe até sua casa, ela olha o senhor à sua frente, na verdade, agora que prestou atenção, mais jovem que à primeira vista. Disse que não, estava só um pouco distraída, pediu desculpas por ter a cabeça tão ao vento, e seguiu seu caminho.
A governanta abre a porta de casa, pálida. Conforme a garota entra pelo grande salão ela discorre sobre o quão preocupada tinha ficado com seu desaparecimento repentino, e sobre o quanto sua mãe ficaria enfurecida se soubesse, os castigos que lhe aplicaria, e estava pra dizer mais um monte de coisas não fosse interrompida quando a garota parou na base da escada, e com um olhar vazio, só lhe respondeu:
- Eu precisava muito sair.
A moça entra em seu quarto e se depara novamente com o retrato em sua cômoda. Sente que vai chorar. Era inevitável lembrar-se de seu rosto ao longo do dia, e tê-lo tão perfeitamente exposto ali, exatamente da forma que aparecia em seus devaneios que tanto lhe desnorteavam.
Ela senta na cama, abaixa a imagem. Já tem lágrimas aos olhos. Mais uma vez voltam aquelas perguntas que lhe perturbam tanto. Por que tivera de ser tão bacana com ela? Por que a fizera gostar dele? Por que a fizera se apaixonar? Por que se amaram tanto? Por que prometara uma família a ela? E mais importante, por que fizera tudo isso e desparecera há duas semanas?
Fazia mais de 15 dias que o rapaz tinha sumido de sua vida. Não a visitava, não mandava cartas, sequer dera uma única razão para seu súbito desaparecimento.
Batem à sua porta. Com o rosto enterrado em uma almofada, ela faz um gemido característico, e uma distinta senhora adentra. Olha ao redor, começa a inspecionar cada canto do aposento, ajeita um quadro, como querendo manter a impecabilidade do lugar. Dirige-se à menina pelo lado oposto da porta, mas se detém quando vê o retrato do rapaz movido de seu lugar, então com um movimento natural, vai para a janela, como se aquele fosse o lugar que pretendesse ir desde o início.
Não tem coragem de olhar para a garota. Apenas começa a discorrer muitas coisas sobre eventos, pessoas e lugares que não a interessavam. Alguma coisa sobre seu pai se preocupar com a guerra, também.
Então vem à sua mente a idéia. Levanta na mesma hora, enxuga o rosto, e corre para o corredor, mas não sem antes pedir desculpas à senhora sua mãe pelo incômodo e dizer que precisava partir.
A última coisa que escuta antes de sair de casa é ela gritando com a governanta para que a detesse, mas a surpresa da fuga da moça foi tão grande que não foram capazes de pegá-la antes que já estivesse fora.
A moça conhecia bem o caminho. O rapaz a levara várias vezes ao cais para que pudessem ver o mar. Lembra-se de suas tardes com ele vendo o sol de pôr, como se aquilo tivesse algum significado além do que davam a ele. E davam muito: foi em um cenário como esse que o rapaz lhe pediu pra ser sua noiva. Ainda tinha que falar com seus pai, mas ele era um homem distinto, e todos sabiam de suas qualidades. A lembrança lembrou o quanto é afortunada, e o quanto é infeliz.
Procurou o que achava ser o maior navio do lugar. Não foi difícil encontrar. O embarque estava sendo silencioso, quase ninguém tinha se dado o trabalho de dar as más notícias ou se despedir mais que o necessário no conforto de sua casa. No meio da fila de homens que deviam embarcar, lá estava o rapaz, agora com a moça aos prantos enroscada em seu tronco.
O rapaz a abraça. Então, levanta o rosto da moça.
- O que estava fazendo aqui?.
Ela, naturalmente, responde-lhe.
- Procurava por você! - cheia de ódio e felicidade não entende como ele podia ainda se perguntar o que ela fazia ali.
O rapaz fita-a inconsolado.
- Não podemos constituir família agora que vou para a guerra. Não quero que vire mais uma mulher esperando por um noivo que talvez nunca volte. Também não queria magoá-la dizendo que não a queria. Talvez, fosse melhor transformar todas as nossas memórias felizes em uma ilusão com meu abandono repentino.
A moça o encara séria e pensativa. Talvez fosse mesmo melhor não saber de nada, fingir que era tudo uma ilusão para evitar o sofrimento de saber que ele morreria em uma guerra.
- Não. Quero saber a verdade, e a verdade é como és, não como um monstro que quer fazer crescer dentro de mim. Não acha que já bastam de monstros dentro do meu coração, e justo quando finalmente encontro aquele que não me enfeitiçara com ilusões?
Ela se afasta, começa a refazer seu caminho, depois de 5 passos, olha para o céu e conclui.
- Se preocupa-se mesmo, tem que ter coragem ao menos duas vezes. A primeira, a tanto tempo quando disse que me queria. A segunda, agora, para saber me dizer que devemos seguir em frente.
O rapaz subiu, em silêncio. Lá de cima, virou-se novamente e disse-lhe:
- Pois assim seja. Eu te amo, minha querida. Adeus.

3 comentários:

Helo (Berry) disse...

Uma estória de amor mto linda, me lembrou um livro que li recentemente, mas o final foi mais triste.:(
mto boa!!
Bjuss

Lary's disse...

q lindinhooooo *-*
adorei...ah, o amor =]

Roberta Araujo disse...

Bonito =]