Além das Frágeis Aparências

Olhei pela janela da frente da casa. O sol iluminava as pequenas plantas do jardim, deixando sombras delgadas sobre a grama verde e cheia de orvalho, fruto de uma noite fria. Muitas folhas secas permeavam toda a extensão do jardim; suspirei. "Hora de começar o trabalho."
Apoiado na vassoura, sorri com a grande pilha amarela e verde diante de mim. Alguns gravetos, flores murchas e frutos esmagados também compunham o monte. "Se as árvores pensassem como nós, seria cada folha, graveto e flor, um pedaço de suas esperanças, estrutura e amores que se partiram?"
O sol agora ardia quase no cume de seu trajeto celeste, quase zombando de minha pele ardendo no cume do cansaço. Sento em um banco de madeira à sombra das telhas da varanda. Adiante, vejo o portão de entrada da casa, e ao longe, noto o som de um sino.
Não tratava-se do som ecumênico do sino de uma igreja. Era o tilintar suave de um sino de mão. Com a rua silenciosa, podia ouvir um som característico, como o de rodas deslizando lentamente pela areia e pó acumulados no asfalto, fazendo pequenos estalos como micro cascalhos quebrando.
Soa pela rua vazia, um assobio. Se tivesse menos anos, com certeza aquele conjunto de sons me indicariam a quilômetros do que se tratava, mas a jovialidade me roubou  alguns de meus instintos, por mais que eles existissem puramente para meu prazer. "Eu cresci... mas também murchei muito em mim."
Levantei por curiosidade, e me dirigi ao portão para comprovar o que já imaginava: um sorveteiro. Um senhor com barba áspera ainda para fazer, tão grisalho quantos seus cabelos desengonçados; uma camisa de botões branca e uma bermuda amarelada, ambos com uma aparência tão abatida quanto o rosto do trabalhador, que apertava os olhos no sol, apesar da cor de sua pele dizer que ele já passara muitos verões sob esse mesmo astro que agora parecia lhe incomodar.
Então me dei conta que o sol também me incomodava muito, e de repente só voltar dentro de casa e beber um copo de água não parecia ser o suficiente. Eu precisava do açúcar... e da sensação de eterna energia que a infância me proporcionara.
Chamei o sorveteiro. Ele se aproximou sem pressa, tentei lhe explicar que não poderia abrir o portão pois não trazia comigo as chaves, mas ele não parecia se incomodar. Na certa já lidara com muita gente por detrás de portões com medo do mundo lá fora, e ele sabia que não era a pior coisa que poderia espreitar por aí.
Perguntei automaticamente os sabores e preços. Não pretendia fazer isso, soar com interesse meramente profissional, mas não consegui evitar. Aquele senhor parecia ter muitos anos de vidas e estórias para contar, e não queria parecer que menosprezava isso, mas acho que por instinto já fizera com que todo o estereótipo que aquele sorveteiro poderia ter das pessoas daquela bonita rua se confirmasse.
Inconformado, escolhi um sabor que me parecia bem tropical e capaz de matar minha sede facilmente. Coloquei a mão no bolso e me dei conta que, assim como a chave, não trazia comigo dinheiro. Disse ao homem que iria buscar minha carteira, despreocupado, ele confirmou com a cabeça apenas.
Quando voltei, notei que a caixa com rodas em que ele parecia levar seus sorvetes não tinha marca nenhuma estampada. Trocamos moeda e doce, e sorrimos mutuamente, ambos satisfeitos com seu lado da parceria. Imaginei se o parando em minha casa, não estaria atrapalhando seu trabalho, e simplesmente o deixei partir, cascalho, sino e assobio ecoando luz adentro.
Experimentei o sorvete comprovando que era caseiro, um trabalho grosseiro mas dedicado. E a refrescância daquele doce era mais que descanso do trabalho e do calor, era um libertar da maturidade opressiva.

Cansado, o senhor fecha a porta atrás de si sem força. Já há muitos anos sua casa ecoava com o vazio. Seus filhos se foram como tinha de ser, a casinha simples em que morava não era o lar que ele queria ter-lhes dado... quem imaginaria que tudo correria como foi? Era um homem honesto e trabalhador, e tentara ao máximo passar isso a seus pequenos.
Senta-se no pequeno sofá da sala, que em outras situações já muito fora usado como quarto. Do outro lado, atrás da televisão, fotos de três jovens recebendo diplomas de faculdade, e outras com famílias com os mesmos jovens. Então, olha para o lado, e de volta para contemplar os retratos de seus filhos.
Olha para o lado novamente, onde estava seu carrinho de sorvete.
Sim, porque, já há muitos anos sua casa ecoava com o vazio dos filhos que partiram da casa simples para um lugar melhor. Era um homem honesto e trabalhador, e tentara passar ao máximo isso aos seus pequenos.
- E conseguimos.
 

4 comentários:

Lary's disse...

q lindo =]
as coisas simples da vida sao as melhores =]

Berry disse...

Mto bonita a estória!!
Da pra sentir a satisfação do sorveteiro em ter conseguido criar seus filhos com seu esforço.
Adorei :)

Roberta Araujo disse...

Ta muito boa, muito bem escrita, mas eu não entendi o final =//

#soulesa

Luana disse...

Engraçado... lendo os comentários, vi que se prestou mais atenção ao sorveteiro ter criado bem os filhos, mas eu me apeguei a outro aspecto do texto, o qual achei muito interessante. O desconforto de gente grande, se preocupando com as coisas desimportantes. Como abrir o portão, ou buscar a carteira. Como se não se permitisse viver cada um dos momentos, e... bater o papo com o sorveteiro. Gostei do jogo de ideias, do senhor, ter sido tb um sorveteiro...