Primeira Impressão

"Qual era a distância que separava você da vítima e do suspeito?" perguntou o interrogador. O menino colocou as mãos na frente do rosto, tentando bloquear a forte luz que acabara de se ligar na sua frente entre si e o assustador homem de azul e preto do outro lado da mesa. "Eu..." começou ele, mas então se interrompeu com um pensamento, e depois retomou "não tenho idéia do que está falando. Que vítima e que suspeito?"
O interrogador olhou para o menino franzino e muito queimado pelos anos de exposição à luz do sol. "Não se faça de desentendido" disse-lhe "estou falando do crime que ocorreu no rochedo daquela praia, um assassinato acompanhado de suicídio, cometido pelo senhor-"
"Mas é isso que não estou entendendo" o garoto lhe interrompeu "ninguém matou ninguém e ninguém se matou." disse calmamente, enquanto tentava olhar a pasta na mão do interrogador.
O interrogador fechou a pasta e a cara. Apoiou os cotovelos na mesa, recurvando-se para frente. "Vou deixar bem clara a situação pra você: ontem, às onze e trinta e seis da manhã, um rapaz e uma garota subiram aquele famoso pedregulho de sete metros de altura que fica na praia em que você... trabalha" ele relutou "testemunhas da distância da praia viram eles chegando juntos, ele a aproxima com força do corpo dela e ela se contorce pra se separar, em seguida ele a empurra, a segura pelos ombros e faz mais força para que caia, e se joga logo após, momento o qual os praistas não presenciaram a queda por ela ter se processado atrás do rochedo do ponto de vista que eles estavam."
Se recostou de novo na cadeira. "Soa familiar pra você?"
Com os olhos fixos no homem, o menino lhe responde, lento e espantado "Não."
"Escuta" disse-lhe o interrogador depois de respirar profundamente "não sei se está a par, mas temos testemunhas de que você tinha subido o rochedo no mesmo momento, e alguns dizem ter-lhe visto lá em cima poucos minutos antes do casal chegar e só saindo alguns minutos depois de sua morte." Ele abre a pasta destaca as fotos e joga na direção do menino. "Se não me responder, então é cúmplice disso aí."
Quando começa a entender as fotos, o jovem coloca-as rapidamente de cabeça pra baixo, ofegante. "O que eu vi, senhor, é o que quer saber?". Com um sorriso no canto da boca, o interrogador respondeu "Claro, tudo que lembrar." Então colocou novamente os cotovelos na mesa, e apoiou o queixo sobre uma das mãos, atento. O menino limpou a garganta, pronto para começar.
"Eu estava de folga nesse dia e resolvi soltar pipa, só que aí ela ficou presa no pedregulho porque um menino cruzou a dele com minha. Aí subi lá pra tirar minha pipa que eu tinha gastado muito dinheiro com ela. Demorei um tempão lá em um canto que dava pé pra mim, e quando tirei a pipa, vi esses dois chegando. Eles eram mais velhos e era um homem e uma mulher, aí achei que iam ficar com raiva se eu aparecesse do cantinho ali embaixo, parecendo que estava espiando.
Aí tive que ficar lá mesmo, né. Eles ficarm quietos um pouco, depois ouvi conversando qualquer coisa muito rápido e rindo também. Uma hora eles ficaram mais sérios, e ouvi o homem dizendo:
- Quero te ter, e não sei como.
Quando olhei, ele tinha puxado ela com força para ele... em um abraço. Ela parecia triste ou confusa, ou os dois, não sei. Sei que passava os braços pelas costas dele e batia em seu peito com a mão fechada, como com raiva, mas nenhum deles estava com raiva. Acho que fiquei meio triste também, sabe? Entendi que a coisa estava muito pesada ali.
Aí depois de um tempo dela socando o peito dele, ele pegou nos ombros dela e separou os dois. Aí disse pra ela:
- Gosto de você, e a desejo. Seremos um agora ou não poderei mais.
Aí a garota fechou os olhos e ficou meio bamba, e vi ele se aproximar rápido e com muita vontade dela. Só que aí eles estavam muito perto da ponta da pedra, e com ela mole e ele fazendo força, o chão desceu embaixo deles. Ela tava mais próxima e foi primeiro, ele desceu em seguida.
Depois corri lá pra cima pra ver se podia ajudar. Vi o homem pendurado com uma mão na pedra, e a outra segurando a mulher. A gente não conversou, eu cheguei perto e estiquei a mão, o homem começou a levantar o braço que segurava ela pra que eu pudesse pegar a mulher porque ele estava escorregando na outra mão. Ela estava vendo isso também  e batia em seu braço pra que ele largasse ela."
O garoto tinha lágrimas nos olhos. Limpou-as e prosseguiu. "Mas não deu tempo, ele escorregou antes que pudesse fazer qualquer coisa. Não vai acreditar em mim, mas eu juro que enquanto eles desciam... tentavam se beijar."
O interrogador reclinou-se na cadeira. Mal podia acreditar na riqueza de detalhes que o menino tinha do fato... era demais para uma invenção, e ainda por cima batia com todas as, agora errôneas, interpretações do visto pelos praistas. De cabeça baixa, o menino só concluiu.
"Não entendo muito de assassinato e suicídio, doutor. Mas se o que vi foi isso, então foi o assassinato e o suicídio mais bonito que ouvi falar."

4 comentários:

Roberta Araujo disse...

Que lindo esse texto, Lucas!
Sério, junte esses contos todos e mande pruma editora, estão muito bons, parabéns!

Berry disse...

Maravilhosa!!!!! É realmente uma das estórias mais bonitas, emocinantes e bem escritas, que já vi. É triste, mas que fala do amor verdadeiro de uma forma linda!!
Adorei a imagem, me lembrou mto a real!! ;D
bjuus

Lary's disse...

lindinhooooooooo
uma prova d q as coisas nem sempre sao o q parecem...=]

CamisGarrido disse...

Meu favorito, você sabe.