Seis horas.
O instante de um dia cansativo.
Em um ponto de ônibus, rostos deprimidos.
Rugas de preocupações.
Cansaço.
Sofrimento.
Todos acumulados.
Nada que ela sinta.
Vindo de outro mundo, a mulher senta-se ao banco.
Muita maquiagem, pouca roupa.
Nada vulgar, suas amigas diriam.
Nada com o que se preocupar, alguém de vida esforçada notaria.
Só um instante com mais uma.
Seu olhar vaga pelos individuos ao redor.
Nada interessa.
Todos acabados.
O veículo chega.
Não há coragem para se pôr na frente da esplendorosa fêmea.
Nem ela quer que um reles o faça.
Sobe as escadas, analisa cuidadosamente o ambiente.
Ninguém digno.
A poucos metros, o único lugar vago.
Dividir o banco com um sujeito.
Dentuço e sorridente. Desengonçado e fraco. Amistoso e patético.
Passa direto.
Pobre mortal, terá a companhia de outros de seus iguais.
Como único lugar, terá oportunidade de se expor um pouco.
Seus instantes de glória.
Finge que não gosta dos olhares.
Mal consegue enganar a si mesma.
Todos mudam.
O ódio toma conta da mulher.
Os olhares se foram.
Na entrada do ônibus, uma menina sobe.
Mas não, é uma mulher.
Apenas completamente alterada.
Seu corpo à mercê de uma doença.
Que a mulher nunca vai ouvir falar.
Ela também vê a ausência de lugares, e o menino.
Mas seus olhos brilham, por um instante apenas.
O garoto se levanta.
Ajuda-a com as muletas.
Conversa com ela por toda viagem.
Vai embora sem dar seu nome.
Fica no anonimato sem pretensões.
Todos maravilhados.
A mulher em sua cólera pessoal.
Por alguns instantes, perdeu os olhares.
Por um instante, todos tiveram algo melhor para olhar.

2 comentários:
Não entendi
Gostei do texto, não sei se quis relacionar com isso, mas que às vezes algo que aparenta ser o mais bonito e atraente, não é realmente o que chama mais nossa atenção, e sim o mais simples e delicado por percebermos algo de verdadeiro nele. As aparências não são nada...
bjoss ;**
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