Em um gesto automático, levanta-se e cai na cama, abraçando todos os seus preciosos amigos e derramando alto todas as lágrimas que vinha contendo. Ainda ecoava na sua mente a ameaça "se você continuar chorando alto...". Sua irmã era provavelmente a coisa mais maligna que existia nesse planeta. Por que sua mãe não fazia nada a respeito? Provavelmente não ligava, por isso saiu com o namorado dela e deixou a menina grande tomar conta da casa. Tinha certeza que quando ela chegasse, diria que ela fora a culpada por derrubar aquele vaso.
Olhou para cima, o rosto rechoncudo amassado e molhado e nota dona Felícia ainda em sua frente, quase como se quisesse dizer alguma coisa. Ela pega a amiga e coloca em baixo do corpo, abraçando-a.
-Você me entende, não é? Sabe que a única coisa que eu queria era que ela fizesse um pouco de comida pra mim.
Olhou para dona Felícia. Ela não respondeu. Seus olhos continuavam parados, mas a menina tinha a impressão que estavam prestes verter lágrimas. Sentindo a dor da antiga companheira por si, ela abaixa a cabeça "Desculpe, dona Felícia..."
Começa a sentir algo no rosto. Tinha molhado o corpo da companheira e se assustou. Pegou um pouco do lençol com desenhos de princesas e tentou enxugar. Olhou para o lençol. Sentiu raiva. Naquele momento, era tudo menos uma princesa.
Queria atenção, e sua mãe lhe deixara sozinha. Queria carinho, mas viu sua irmã com o namorado no sofá e por isso fora maltratada.Queria amor, sonhara com um príncipe encantado, e sua única companheira agora era Felícia.
A menina começou a dobrar o rosto em raiva fitando a companheira. Agora era uma inimiga.
- Se não você fosse real, poderia fazer alguma coisa, poderia ter sido útil. Poderia ver como estou sofrendo. Sua boba, por que não pode ser minha amiga de verdade?
Levantou-se de um pulo na cama segurando a ex-amiga pelo pescoço dirigindo-se à janela e atirou com toda sua furiosa força aquela que fora sua companheira desde que se lembra de qualquer coisa.
Andou de costas e sentou ao lado da cama, onde voltou a chorar até dormir ali mesmo, faminta, deprimida e sozinha.
...
Fecho o portão de casa apressado "isso que dá usar os 5 minutinhos a mais do despertador: você não resiste em usar mais de uma vez", penso comigo. A rua até o lugar onde vou pegar meu ônibus é comprida, e tenho que apertar o passo. "Pelo menos saio mais cedo hoje".
Quase no final da rua, mesmo distraído com o som de minha voz internamente divagando sobre tudo e o sono que tentava me dominar, noto uma coisa curiosa no chão. Era amarelo claro e tinha manchas pretas aqui e acolá.
Paro para observar o que era, inicialmente achando ser um gato muito machucado, tinha ficado preocupado. Quando me aproximo, investigo melhor e percebo ser um bicho de pelúcia. Uma onça. Pego o brinquedo, ligeiramente úmido, e noto que não tem poças ao redor e sequer chovera a noite. Também era muito limpo apesar de parecer velho.Em uma antiga etiqueta, um nome escrito em tinta azul: Felícia. "Um brinquedo querido", pensei, pelo estado de conservação.
Fiquei imaginando se alguma criança pequena não teria jogado um antigo brinquedo de família pela janela brincando, e agora a mãe a condenara por arremessar a oncinha pela janela e como punição deixaria ela sem o brinquedo.
Peguei a pelúcia, me encaminhei para o portão e coloquei do lado de dentro. Que ela tenha brigado com o pai, a mãe, os irmãos ou seja lá quem for que, na cabecinha dela, agora se distanciou para sempre, não importa o que a criança tenha feito, ela não merece perder mais um de seus amigos, mais um querido companheiro.

2 comentários:
Você escreve muuuito bem, e ficou muito bem elaborado e tal.
E fofo haha
eu tenho uma leoa de pelucia,...uma Nala...de rei leo msm...e d qdo eu era pekena msm...amoooooooooooooo*-*
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