Lágrimas à Primeira Vista

O homem dá a última garfada no seu prato, olha para ela, sentada próximo, com os braços repousando sobre a mesa e a cabeça sobre eles. Ele pisca para ela, ainda mastigando, e passa a mão pelos longos cabelos negros da mulher. Ela lhe retribui com um sorriso, os olhos quase fechados por suas bochechas, agora tão pálidas. Vá descansar, ele lhe diz. Ela se levanta, pega sua jaqueta atrás da cadeira e vai colocando nele. Pare de se preocupar comigo, lhe responde, e volte ao trabalho. Ele se levanta, beija-a no rosto. Volto assim que puder, conclui, caminha para a porta da casa e despede-se com um aceno de mão, ao que ela responde mandando um beijo com a sua.
Esse era o quinto dia seguido que ele vinha almoçar em casa, desde que ela começara a adoecer. Era trabalhador, e, no entanto, andava se arriscando demais para apenas ver se ela já melhorara. Como não podia ela mesmo trabalhar, tentava usar o tempo da melhor forma possível. Agora, era dando valor a esse gesto.
Enquanto pega as coisas na mesa, cantarolando com um sorriso, ouve a porta abrindo e em seguida fechando-se com violência. Vê então sua filha correr na direção do quarto e fechar a porta de seu quarto com igual força.
Batidas ecoam suavemente na porta rosa do quarto da menina. A mulher entra, observa por uma fração de segundo o interior, nostálgica com todos os brinquedos que se encontravam, agora, nas prateleiras mais altas, e ao mesmo tempo assombrada com os cartazes de ídolos musicais de que ela nunca ouviu falar, assim como os muitos lugares guardando maquiagem, acessórios e tantas outras coisas que mesmo ela tinha dificuldade em dizer o que havia em cada. Ela, sua própria mãe. Sua filha crescia, ela teria que se conformar. Ela teria que se conformar?
A menina encontra-se na cama, com a barriga virada pra baixo e o rosto enterrado no colchão, em um lamúrio que já lhe era familiar. Senta-se ao seu lado e vê os frágeis braços envolvendo-a com força. Minha querida, o que aconteceu?, lhe pergunta, e tem de esperar sua menina conseguir conter suas lágrimas a fim de obter uma resposta. Ele foi um monstro, ela lhe diz chorosa, nunca mais quero ver ele nem homem nenhum. Sua mãe se restringe a responder dando mais vigor ao abraço. Sabe que, nesse momento, nada que diga vai amenizar sua dor.
Após alguns minutos, ela finalmente olha para a mãe. Vê o rosto pálido da mulher. Papai esteve aqui de novo, não foi?, pergunta-lhe a menina. Sim, sua mãe responde, ele é preocupado comigo, então afaga o cabelo da menina e sorri para ela. Esses homens da minha geração, continua a filha, encostando a cabeça contra o convidativo ombro a sua frente; eles são horrorosos, mãe.
A mulher suspira, diz quase que para si mesma, não minha filha, eles sempre existiram.

...

Esses olhares não param, será possível que não posso ter um único minuto de paz? Aqui estou nesse trem esquecido com todas essas pessoas voltando do trabalho e depois de tudo... aquilo, ainda tenho que aturar esses aproveitadores. Eles nem tocaram em mim, mas sei que só preciso dar-lhes a oportunidade. Como... ele.
Eles não darão trégua enquanto eu estiver aqui, em pé, vulnerável a seu campo de visão devorador. Tenho tanto em minha mente agora, tanta coisa que quero refletir, mas essa sensação de servir de espetáculo visual para esses homens ao meu redor é simplesmente insuportável demais. Uma estação está chegando, não é a minha, mas eu preciso sair daqui.
Um banco, finalmente. Parecido com o que nós nos encontramos pela primeira vez. Ele era quente e veloz como um tornado... e agora, eu vejo, tão destruidor quanto. Me chamou de puta, disse que era um absurdo eu querer dele tanto. Mas só queria que me amasse. Droga, vou chorar de novo.
Estou farta disso. Quantos outros vão continuar olhando pro meu corpo e ver nada além disso? Lá está mais um fingindo que está apenas prestando atenção nos trens. Não quer saber o que penso, o que sou, apenas o que posso lhe oferecer. Como ele disse... apenas uma mulher bonita. É só o que importa.
Tenho que sair daqui, já estão se acumulando mais alguns homens ao redor. E é melhor antes que alguém perceba que estou choran-
- Desculpe moça, não vi você vindo com tanta pressa.
De onde veio esse rapaz? Ah, eu fui na direção da roleta de entrada. Burra, é claro que alguém ia te atropelar aqui.
- Eu que tenho que pedir desculpas, não estava vendo por onde andava.
E agora? Eu aqui tentando me desculpar, e ele está olhando para o nada atrás de mim. O que será que ele está vendo lá trás? Não tem nada. Por que ele está rindo?
- Moça, não estou olhando na sua direção. Estou olhando para você. Apreciando a paisagem de seus belos olhos, e tentando entender porquê estão tão tristes.

...

Mãe?, pergunta a menina, despertando a mulher de seu transe nostálgico, fazendo-a voltar para o presente. Desculpe querida, disse alguma coisa? a mãe a responde. Sim, diz a menina, perguntei se teve dificuldade em saber que o papai era um homem bacana.
Não, respondeu sua mãe com um sorriso no rosto, a imagem daquele esbarrão no jovem ainda em sua mente; eu soube no mesmo instante.

3 comentários:

Roberta Araujo disse...

Adorei.

Lary's disse...

lindinho...=)
mas eu nem acredito em amor a primeira vista...
uhahuah

Berry disse...

que lindo o texto!! Adorei. Acho que realmente sabemos e sentimos quando encontramos alguem especial. :D
=**