O pensamento é a luz pela qual crescemos. A idéia se deriva em ramos infinitos. O mundo é um organismo.
Loucura
Ela olhou para ele sentado na grama, observando as nuvens. Em pé, ao seu lado, apenas lhe disse:
- Então... você é o louco?
- Não. Você que é - disse-lhe imediatamente sem tirar os olhos do céu.
- Eu?! Que absurdo, como pode dizer que sou louca? Sequer te conheço!
- Então o que faria alguém vir conversar com alguém que considera louco, se não loucura?
- Não sei. Compaixão, talvez.
- Como pode ter compaixão por mim sem me conhecer?
- Conheço o suficiente para ter compaixão: sei que é louco.
- Só se pode ter compaixão por aquilo que se identifica. E se identifica-se com o que acha que eu sou, é louca.
- Não acho que é louco! Tenho certeza!
- Tem muitas certezas pra quem não me conhece. Está inventando, alucinando. É louca.
- Pare com isso!!
- Vai surtar? Ih...
- Ok... com calma. Senhor, não sou louca. Você foi diagnosticado com diversos problemas psiquiátricos e não está em condições de argumentar comigo.
- Isso é um desafio?
- Por que não?
- O que colocou no seu prato do almoço nas últimas 3 semanas e em que ordem?
- O que?!
- Vamos, quero ver como anda sua memória.
- Mas isso é loucura!
- É, não ter memória deve ser uma loucura mesmo.
- Não, loucura é se dar o trabalho de lembrar de tudo isso.
- E do que se lembra? Arquivos, textos, documentos...? Alguma coisa útil?
- Tudo isso é útil ao meu trabalho.
- Seu trabalho é uma loucura.
- Argh! Já vi que a maior loucura por aqui é tentar manter essa conversa!
- De fato. Está difícil conversar com uma mulher louca. Você mal deixa eu fazer meu trabalho.
- Seu trabalho? - Ela ri. - O que está fazendo, contabilidade de nuvens?
- Não, só imaginando quanto tempo perdemos com conversas fúteis e esquecemos de ver coisas belas e simples como a forma dessas nuvens, sua leveza e graciosidade. Talvez devêssemos nos espelhar mais nos exemplos da natureza, com as nuvens, por exemplo, poderíamos aprender a voar.
- ...senhor?
- Sim?
- Por que foi diagnosticado louco? Aqui na sua ficha diz que você possuia uma alucinação sobre todos quererem comer papel.
- Claro. Se não querem, não vejo utilidade para ansiarem 30 dias no trabalho por ele, pra quase sempre perdê-lo de uma vez e ter que começar mais um mês infeliz.
- Está falando de dinh-
- Estou falando de planos que fazemos para o depois, e as poucas oportunidades que nos damos no presente. As chances que perdemos por não conseguirmos se desligar do passado e projetar demais o futuro. - Ele observa enquanto ela se senta ao seu lado.
- Isso tudo é uma loucura...
- Em massa.
- Mas isso faz de mim uma louca. Como pode ter sabido desde o início?
Ele sorriu.
- É fácil reconhecer seus iguais.
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4 comentários:
Incrível, maravilhoso, há muito tempo não gostava tanto de um texto quanto desse! Sério mesmo, parabéns!
Eu ri muito e gostei muito da visão que você teve =]
"Os homens que perdem a saúde para juntar dinheiro e depois perdem o dinheiro para recuperar a saúde; Por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem o presente, de tal forma que acabam por nem viver no presente nem no futuro; Vivem como se nunca fossem morrer e morrem como se nunca tivessem vivido."
( Buda )
me lembrei disso quando li seu texto...adoreiii ^^
realmente somos todos loucos...
uauhahuahuah
Adorei o texto!!!
E é vdd, mtas vezes não percebemos o quanto louco o mundo está ficando né...;D
Bjuss!
Achei o texto Genial! Primeiro, pelo jogo de reconhecer no outro, aquilo que há em nós mesmo. Segundo... pelo desencadear do texto, criticando, os momentos fúteis que preenhcemos grande parte de nossos dias... Vou parar por aqui, senão a viagem vai para no Japão. A sutileza da escrita também é muito boa, não posso comparar com tudo o que pensei... porque as ideias forem se juntando...
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