Entro apressado no trem. Não sei se porque acho que estou atrasado ou pela ânsia de imaginar que uma viagem sentada seria melhor. Nós que já sentamos tanto, precisamos mesmo de tanto conforto?
Mas me sento, e esqueço meus devaneios, sedentarizo corpo e mente.
Quase não noto quando, à frente, uma mulher tem dificuldade para passar. Um casal à sua frente tenta buscar dois lugares vagos, como não encontram, deixam um espaço aberto. A mulher senta-se. Agora entendo porque ela se complicava em se deslocar: leva consigo uma grande mala com rodas.
O trem começa a se mover, acelerando vagarosamente. Todas as pessoas ao redor fingem ignorar umas às outras. As que não estão com um conhecido, distraem-se com os arredores ou perdem-se em pensamentos. Tento não pensar no que farei em seguida para não abrir brechas à ansiedade, para não gerar expectativa e esta poder gerar decepção. Tento-me ater ao chão, para a felicidade ocorrer no real e não no imaginário.
As pessoas ao redor, principalmente aquelas em pé, tentam fazer suas melhores poses. Procuram mostrar a melhor primeira impressão possível a um bando de estranhos enquanto ao mesmo tempo se indagam como todos os outros podem ser autômatos sem mente enquanto são uma das únicas pessoas conscientes e pensantes. Todos especiais ao seu modo, todos convencidos demais disso.
Sem o conhecimento, ou pelo menos sem que esbocem tal, dos outros passageiros, noto que há algo de errado com a mulher com a mala. Seu rosto contorce-se de vez em quando em espasmos de tristeza, como alguém tentando lutar contra algo muito ruim dentro de si, mas parecia estar perdendo a briga. Seus olhos começam a pesar, piscando cada vez mais rápido. Antes que me dê conta, já escorria a primeira lágrima.
A mulher não parecia ter vergonha. Permaneceu parada, apenas deixando as gotas correrem seu rosto e sua face entregar-se à tristeza. Mas não encobria-se ou se limpava, simplesmente refletia. Estava claro que suas lembranças a faziam chorar... mas o que poderia ser tão poderoso?
Tentei associar à mala. Era grande, parecia ser uma viagem longa. Ou para longe. Ambos, talvez. Talvez estivesse chorando por se lembrar de tudo aquilo que deixaria para trás e não teria novamente nesse lugar para onde iria.
Seria saudade?
Ou, talvez, chorava por lembrar de suas tristezas. Tivera experiências muito ruins onde estava, e recordava de tudo aquilo que a fazia mal, e estava prestes a se lembrar. Talvez estivesse fugindo. Talvez tivesse feito por merecer sua viagem, suportando muito tempo de sofrimento onde não pertencia.
Seria esperança?
Mas então o lugar que preciso parar chega, e a educação me diz para parar de olhar para a mulher enquanto meu coração diz para ir consolá-la. Esqueça, deixa-a ir. Apenas aprenda a pluralidade dos sentimentos.

2 comentários:
Gostei muito do texto e da forma como escreveu e transmitiu essa cena que me contou da moça no metrô. Tbm fico pensando, o que será que estavam causando aquelas lágrimas... Bom espero que tudo tenha acabado bem. :)
Isso aconteceu mesmo? Ficou mto bom
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